Oposição Venezuelana Apela Novamente aos Militares: Estratégia Recorrente?
Após intervenção dos EUA, Edmundo González clam
247 – Em um cenário de crescente tensão política na Venezuela, agravado pela recente intervenção dos Estados Unidos, o candidato da oposição, Edmundo González, fez um apelo direto às Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB) para que o conduzam ao poder. Em um vídeo divulgado no último domingo,
Um Apelo à Lealdade Constitucional em Meio ao Caos
O vídeo de Edmundo González, divulgado em suas redes sociais, representa um ponto de inflexão na já conturbada situação política venezuelana. Ao se dirigir diretamente aos militares, González busca legitimar sua reivindicação à presidência e desafiar a autoridade de Nicolás Maduro, que governa o país há mais de uma década. "Como presidente dos venezuelanos, faço um apelo calmo e claro às forças armadas nacionais e às forças de segurança do estado", declarou González, antes de enfatizar o que ele considera ser o dever dos militares de "sustentar e cumprir o mandato soberano expresso em 28 de julho de 2024."
A escolha das palavras de González é estratégica. Ao invocar a Constituição e o "mandato soberano", ele busca apresentar seu apelo como um ato de defesa da democracia e do Estado de Direito, em contraposição ao que ele descreve como um regime autoritário e ilegítimo. No entanto, a questão central reside na interpretação da Constituição e na legitimidade do processo eleitoral de 2024, que tem sido amplamente questionado pela oposição e por diversos atores internacionais. A declaração de González também ocorre em um contexto de crescente instabilidade, marcado pela intervenção dos EUA e pelas acusações de narcotráfico contra Maduro, o que adiciona uma camada de complexidade à situação.
Histórico de Apelos Militares e a Divisão da Oposição
O apelo de Edmundo González aos militares não é um fato isolado na história política recente da Venezuela. Ao longo dos anos, a oposição venezuelana tem recorrido repetidamente a essa estratégia, buscando o apoio das Forças Armadas para derrubar o governo chavista. Em 2002, uma tentativa de golpe de Estado, liderada por militares e apoiada por setores da oposição, resultou na breve deposição de Hugo Chávez, que foi restaurado ao poder poucos dias depois graças à lealdade de parte das FANB e à mobilização popular. Desde então, outros episódios de insurreição militar têm ocorrido, com diferentes graus de sucesso, mas sempre marcados por violência e polarização política.
A eficácia dessa estratégia tem sido amplamente debatida. Por um lado, alguns argumentam que o apoio das Forças Armadas é essencial para a mudança de regime, dada a força e o controle que os militares exercem sobre o Estado venezuelano. Por outro lado, outros alertam para os riscos de uma intervenção militar, que pode levar a um banho de sangue e a uma escalada da violência. Além disso, a oposição venezuelana tem sido historicamente dividida em relação a essa estratégia, com alguns setores defendendo o diálogo e a negociação como forma de alcançar a mudança política, enquanto outros apostam na via insurrecional. A declaração de Donald Trump, questionando a capacidade da oposição liderada por María Corina Machado de governar o país, revela as divergências internas e a falta de apoio externo unânime à estratégia de apelo militar.
O Papel dos Estados Unidos e as Implicações Geopolíticas
A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela adiciona uma dimensão geopolítica complexa ao cenário político. As acusações de narcotráfico contra Nicolás Maduro e o reconhecimento interino de Delcy Rodríguez por parte de Trump demonstram o claro interesse dos EUA em influenciar a situação venezuelana. A história da América Latina é marcada por intervenções dos Estados Unidos em assuntos internos de países da região, muitas vezes com consequências desastrosas. O apoio dos EUA à oposição venezuelana, incluindo o financiamento de grupos políticos e a imposição de sanções econômicas, tem sido criticado por diversos setores da sociedade civil e por governos de outros países, que consideram que essa política contribui para a desestabilização da Venezuela.
"Os Estados Unidos 'governariam' a nação latino-americana", afirmou Trump, em uma declaração que gerou indignação e preocupação em toda a região. Essa postura intervencionista dos EUA reacende o fantasma do imperialismo e da ingerência em assuntos internos de outros países. A Venezuela, rica em recursos naturais, especialmente petróleo, tem sido alvo de interesses econômicos e geopolíticos de potências estrangeiras ao longo de sua história. A crise política e econômica que o país enfrenta atualmente é, em parte, resultado de décadas de má gestão, corrupção e dependência do petróleo, mas também é agravada pelas sanções econômicas impostas pelos EUA, que têm afetado a vida da população venezuelana.
Prisioneiros Políticos e o Futuro da Venezuela
Além do apelo aos militares, Edmundo González também exigiu a libertação de todos os prisioneiros políticos na Venezuela. "A verdadeira normalização do país só será possível quando todos os venezuelanos que estão privados de liberdade por motivos políticos – verdadeiros reféns de um sistema de perseguição – forem libertados, e quando a vontade da maioria expressa pelo povo venezuelano em 28 de julho for respeitada de forma inequívoca", declarou González. A questão dos prisioneiros políticos é um tema sensível na Venezuela, com denúncias de prisões arbitrárias, tortura e violações dos direitos humanos. A libertação dos prisioneiros políticos é uma demanda constante da oposição e de organizações de direitos humanos, que consideram que essa medida é fundamental para a construção de um clima de diálogo e reconciliação nacional.
O futuro da Venezuela permanece incerto. A crise política, econômica e social que o país enfrenta exige soluções urgentes e coordenadas. O diálogo entre o governo e a oposição, com a mediação de atores internacionais imparciais, é fundamental para encontrar um caminho para a paz e a estabilidade. No entanto, a polarização política, a desconfiança mútua e os interesses externos em jogo dificultam a busca por um acordo. O apelo de Edmundo González aos militares reacende o debate sobre a via para a mudança política na Venezuela, mas também alerta para os riscos de uma escalada da violência e de uma intervenção militar. A solução para a crise venezuelana passa, necessariamente, pelo respeito à soberania nacional, pela defesa da democracia e pela garantia dos direitos humanos de todos os venezuelanos.


