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Tereza Cruvinel

Colunista/comentarista do Brasil247, fundadora e ex-presidente da EBC/TV Brasil, ex-colunista de O Globo, JB, Correio Braziliense, RedeTV e outros veículos.

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Rita Lee, tantas traduções

Já na maturidade entendemos que ela foi, para nós mulheres, não um ícone do feminismo, mas um farol

Rita Lee (Foto: Marco Senche/Wikimedia Commons/ABr)

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Não foi apenas São Paulo que ela traduziu, embora o verso que Caetano dedicou a ela na letra de Sampa seja tão bonito.

Quando éramos adolescentes, Rita Lee foi tradução de nossa rebeldia, de nossos impulsos libertários, transgressores e experimentalistas.

Com ela nos apossamos de nossos corpos, dançando ao som de suas músicas nas festas de nossa juventude. “Lança perfume” será para sempre o som da liberdade. Com sua “deselegância discreta”, seus cabelos de tantos estilos, sua linguagem corporal tão própria, ela nos disse: sejam donos de seus corpos.

Já na maturidade entendemos que ela foi, para nós mulheres, não um ícone do feminismo, mas um farol. Ela pode ser, fazer e acontecer no mundo que era dos homens, inclusive no mundo do rock.

Mas ela foi também nossa resistência à ditadura e mesmo às truculências atuais, como ao armar um circo no show de Aracaju, não faz muito tempo, quando os policiais começaram a revistar as pessoas da plateia. “Sou do tempo da ditadura. Acham que eu tenho medo?”. Não, Rita foi sempre destemida, inclusive para morrer.

Quem, na posição dela,  escreveria com tanta franqueza sobre o dia em que morresse, como ela fez na autobriografia?

 "Quando eu morrer, posso imaginar as palavras de carinho de quem me detesta. Algumas rádios tocarão minhas músicas sem cobrar jabá. Fãs, esses sinceros, empunharão meus discos e entoarão 'Ovelha Negra', as TVs já devem ter na manga um resumo da minha trajetória.”

E mais adiante:

“Nenhum político se atreverá a comparecer ao meu velório, uma vez que nunca compareci ao palanque de nenhum deles e me levantaria do caixão para vaiá-los. Enquanto isso, estarei eu de alma presente no céu tocando minha autoharp e cantando para Deus: “Thank You Lord, finally sedated”.
Epitáfio: Ela nunca foi um bom exemplo, mas era gente boa.”

Ela disse ainda, na autobiografia, que seu grande feito foi ter feito muita gente feliz.  Agora vai, Rita, fazer mais gente feliz e alegre lá no céu.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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