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Ministro venezuelano denuncia ataque dos EUA com mais de 100 mortos

Governo bolivariano acusa Washington de uma incursão militar letal, enquanto o New York Times reporta um número menor de vítimas em um suposto 'raid'

247 – O governo da Venezuela denunciou uma gravíssima agressão militar perpetrada pelos Estados Unidos em seu território, resultando na morte de pelo menos 100 pessoas. A acusação foi feita por um ministro do governo de Nicolás Maduro, que afirmou que um ataque direto das forças norte-americanas causou a tragédia. A denúncia, que ecoa o longo histórico de intervencionismo de Washington na América Latina, representa uma escalada dramática nas tensões entre os dois países. Em contraponto, uma reportagem do jornal norte-americano The New York Times, citada em agências internacionais, menciona um número diferente, afirmando que "80 people killed in US raid on Venezuela – NYT". A discrepância nos números e na terminologia – "ataque" versus "raid" (incursão) – já aponta para a guerra de narrativas que se desenha em torno do episódio, um padrão recorrente quando se trata de ações militares dos EUA no exterior.

A Denúncia e a Batalha de Narrativas

A acusação vinda de Caracas é direta e contundente. Fontes do governo bolivariano foram enfáticas ao declarar que um "ataque dos EUA à Venezuela deixou pelo menos 100 mortos". A escolha das palavras não deixa margem para dúvidas sobre a interpretação venezuelana: trata-se de um ato de guerra, uma violação flagrante da soberania nacional que resultou em um massacre. A denúncia busca mobilizar a opinião pública internacional e os órgãos multilaterais contra o que seria mais um capítulo da política imperialista norte-americana, que há décadas utiliza seu poderio militar para desestabilizar governos que não se alinham a seus interesses estratégicos e econômicos.

Do outro lado do espectro informativo, a versão divulgada pelo The New York Times apresenta uma perspectiva que, embora confirme a letalidade da operação, utiliza uma linguagem que busca mitigar a gravidade do ato. Ao classificar o evento como um "raid" (incursão ou batida), o jornal adota um termo frequentemente empregado por agências militares para descrever operações especiais, geralmente contra alvos específicos, como terroristas ou traficantes. Essa narrativa sutilmente despolitiza a ação, enquadrando-a como uma operação de segurança e não como um ataque a uma nação soberana. A redução do número de vítimas para 80 também pode ser interpretada como uma estratégia para minimizar o impacto humanitário e a repercussão negativa da operação. É a clássica disputa de enquadramento, onde a mídia corporativa ocidental frequentemente atua como um braço de relações públicas do Pentágono e do Departamento de Estado.

Um Histórico de Agressões e Soberania Violada

Para compreender a gravidade da denúncia venezuelana, é imprescindível situá-la no contexto histórico das relações entre os Estados Unidos e a América Latina. A Doutrina Monroe, proclamada no século XIX, estabeleceu as bases para que Washington se considerasse o poder hegemônico do continente, com o direito de intervir sempre que seus interesses fossem contrariados. Desde então, a lista de intervenções, golpes de Estado, invasões e operações secretas é extensa e sangrenta. Do golpe que derrubou Jacobo Árbenz na Guatemala em 1954 à invasão da Baía dos Porcos em Cuba, do apoio à ditadura de Pinochet no Chile ao financiamento dos "Contras" na Nicarágua, a política externa americana tem deixado um rastro de destruição e instabilidade na região.

A Venezuela, especialmente desde a ascensão de Hugo Chávez em 1999, tornou-se um alvo prioritário. Em 2002, Washington apoiou abertamente o golpe fracassado contra Chávez. Nos anos seguintes, financiou grupos de oposição, impôs sanções econômicas devastadoras e jamais descartou a "opção militar". As sanções, em particular, configuram uma forma de guerra híbrida que, segundo relatores da ONU, já causaram dezenas de milhares de mortes ao impedir o acesso do país a alimentos, medicamentos e equipamentos essenciais. Nesse cenário, a denúncia de um ataque militar direto não surge no vácuo. Ela é a materialização de uma ameaça constante e a consequência lógica de uma política de agressão sistemática que visa a "mudança de regime" a qualquer custo. A soberania venezuelana tem sido violada de forma contínua, e este ataque, se confirmado por investigações independentes, seria a mais brutal dessas violações.

Guerra Híbrida e o Silêncio Cúmplice

A agressão denunciada pelo ministro venezuelano, que afirma que o "ataque dos EUA deixou 100 mortos", se encaixa perfeitamente no conceito de guerra híbrida. Este tipo de conflito combina operações militares convencionais e não convencionais, pressão econômica, guerra cibernética, manipulação da informação e desestabilização política. O objetivo é sufocar o adversário sem a necessidade de uma declaração formal de guerra, o que minimiza os custos políticos e a fiscalização internacional. As sanções econômicas são a face mais visível dessa estratégia contra a Venezuela, mas operações encobertas e incursões militares pontuais, como a que foi denunciada, são ferramentas igualmente importantes nesse arsenal.

A reação da comunidade internacional e da mídia hegemônica a essa denúncia será um termômetro do atual equilíbrio geopolítico. É provável que vejamos um silêncio ensurdecedor por parte dos governos europeus e de outros aliados dos EUA, enquanto a grande imprensa tratará o caso com ceticismo, dando mais peso à versão do NYT e do Pentágono do que à do governo que sofreu o ataque. Organizações como a OEA (Organização dos Estados Americanos), historicamente alinhada aos interesses de Washington, dificilmente promoverão uma condenação veemente. Caberá aos países do Sul Global, aos movimentos sociais e à imprensa independente a tarefa de furar o bloqueio informativo e exigir uma investigação rigorosa e imparcial sobre o ocorrido. A ausência de uma resposta firme e unificada apenas encorajará novas agressões, reforçando a perigosa ideia de que os Estados Unidos estão acima do direito internacional.

A Urgência de uma Investigação e as Consequências Futuras

Diante de uma denúncia de tal magnitude, a única resposta aceitável é a convocação de uma investigação internacional independente, conduzida por órgãos isentos como o Conselho de Direitos Humanos da ONU ou um tribunal internacional. É crucial que peritos possam ir ao local, verificar os fatos, identificar as vítimas e apurar as responsabilidades. A verdade não pode ser refém da guerra de narrativas entre Caracas e Washington. As vidas perdidas, sejam 80 ou 100, exigem justiça e reparação. A impunidade seria um precedente perigoso, sinalizando que potências militares podem atacar nações soberanas sem qualquer consequência.

Este episódio, independentemente de seus detalhes finais, serve como um alerta para o Brasil e toda a América Latina. A política de submissão aos interesses norte-americanos, adotada por governos neoliberais na região, não garante paz ou estabilidade; pelo contrário, torna o continente mais vulnerável a conflitos. A defesa intransigente da soberania, da autodeterminação dos povos e da solução pacífica de controvérsias deve ser o pilar da política externa de qualquer nação que preze por sua independência. A agressão à Venezuela é uma agressão a todos os povos que lutam por um mundo multipolar e mais justo. O silêncio, neste momento, é cumplicidade.