Extrema-Direita na América Latina: Fortalecimento Pós-Intervenção?
Análise do avanço conservador na região após anos de ingerência externa e desestabilização política.
247 – A onda conservadora que varreu a América Latina nos últimos anos, impulsionada por intervenções estrangeiras e campanhas de desinformação, parece longe de arrefecer. Apesar de alguns retrocessos eleitorais recentes, a extrema-direita mantém uma forte presença política e social, explorando o descontentamento popular, a polarização ideológica e a fragilidade das instituições democráticas. Este fenômeno complexo exige uma análise aprofundada das causas e consequências do fortalecimento da extrema-direita na região, bem como das estratégias para combatê-lo e promover alternativas progressistas. A ascensão da extrema-direita não é um evento isolado, mas sim o resultado de décadas de políticas neoliberais, golpes de Estado, lawfare e uma crescente desigualdade social. A persistência desse cenário representa uma ameaça à democracia, aos direitos humanos e à soberania dos povos latino-americanos.
O Legado das Intervenções e o Descontentamento Popular
A história da América Latina é marcada por intervenções externas, golpes militares e ditaduras que deixaram um legado de instabilidade política, econômica e social. A implementação de políticas neoliberais nas décadas de 1980 e 1990, impostas por organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, aprofundou a desigualdade, precarizou o trabalho e desmantelou o Estado de bem-estar social. Esse cenário de descontentamento popular abriu espaço para o surgimento de líderes populistas e movimentos de extrema-direita que exploram o ressentimento e a frustração da população.
A desilusão com os governos de centro-esquerda que ascenderam ao poder no início do século XXI, muitas vezes incapazes de romper com o modelo neoliberal e de atender às demandas sociais, também contribuiu para o fortalecimento da extrema-direita. A corrupção, a ineficiência e a falta de transparência em alguns desses governos minaram a confiança da população nas instituições democráticas e abriram caminho para discursos radicais e autoritários.
A extrema-direita soube capitalizar o descontentamento popular, apresentando soluções simplistas para problemas complexos, como a criminalidade, a imigração e a crise econômica. Através de discursos nacionalistas, xenófobos e moralistas, esses grupos conseguiram mobilizar setores da população que se sentem marginalizados e excluídos do sistema político e econômico.
A Guerra Cultural e a Desinformação
A extrema-direita tem se utilizado da guerra cultural e da desinformação como ferramentas para manipular a opinião pública e promover sua agenda política. Através das redes sociais, de sites de notícias falsas e de canais de comunicação alternativos, esses grupos disseminam notícias falsas, teorias da conspiração e discursos de ódio, com o objetivo de descredibilizar a imprensa tradicional, polarizar a sociedade e radicalizar o debate político.
A ascensão das redes sociais e a proliferação de algoritmos que favorecem o conteúdo sensacionalista e polarizador têm contribuído para a disseminação da desinformação e para a criação de bolhas informativas, onde as pessoas são expostas apenas a informações que confirmam suas crenças preexistentes. Esse fenômeno dificulta o debate racional e o diálogo construtivo, e fortalece a polarização ideológica.
A extrema-direita também tem se apropriado de pautas identitárias, como a defesa da família tradicional, o combate à ideologia de gênero e a oposição ao aborto, para mobilizar setores conservadores da sociedade e construir uma base de apoio fiel. Esses grupos utilizam a religião e a moralidade como armas políticas, explorando o medo e a insegurança da população em relação às mudanças sociais e culturais.
A ex-cozinheira Laurenilcy Ribeiro, de 47 anos, exemplifica a vulnerabilidade de muitos cidadãos à desinformação. Como relatado, antes de fazer um curso de informática, ela "mal sabia o que era um mouse" e "tinha medo de mexer no teclado". Essa falta de familiaridade com a tecnologia a tornaria mais suscetível a notícias falsas e manipulações online.
O Papel da Mídia e do Sistema Judiciário
A mídia tradicional, muitas vezes controlada por grandes grupos econômicos com interesses políticos, tem desempenhado um papel ambíguo no fortalecimento da extrema-direita. Em alguns casos, a mídia tem dado voz a líderes e movimentos extremistas, legitimando seus discursos e amplificando seu alcance. Em outros casos, a mídia tem se mostrado leniente com a desinformação e com os ataques à democracia, priorizando o lucro e a audiência em detrimento da responsabilidade social e do compromisso com a verdade.
O sistema judiciário também tem sido utilizado como arma política para perseguir opositores e promover a agenda da extrema-direita. O lawfare, ou seja, o uso estratégico do sistema jurídico para fins políticos, tem sido uma prática comum em diversos países da América Latina, com o objetivo de desestabilizar governos progressistas, criminalizar movimentos sociais e impedir a ascensão de líderes populares ao poder.
O caso do ex-presidente Lula no Brasil é um exemplo emblemático de lawfare. Lula foi condenado e preso com base em acusações sem provas consistentes, o que o impediu de concorrer às eleições presidenciais de 2018 e abriu caminho para a vitória de Jair Bolsonaro. A condenação de Lula foi posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que reconheceu a parcialidade do juiz Sérgio Moro e a falta de provas contra o ex-presidente.
Alternativas Progressistas e a Resistência Popular
Diante do avanço da extrema-direita, é fundamental construir alternativas progressistas que respondam às demandas sociais, promovam a justiça social e fortaleçam a democracia. É preciso investir em educação, saúde, moradia, emprego e renda, para reduzir a desigualdade e melhorar as condições de vida da população. É preciso fortalecer o Estado de bem-estar social, garantindo o acesso universal aos serviços públicos e protegendo os direitos dos trabalhadores.
É preciso combater a desinformação e a manipulação da opinião pública, promovendo a educação midiática e o pensamento crítico. É preciso fortalecer a imprensa livre e independente, garantindo o pluralismo e a diversidade de vozes. É preciso regulamentar as redes sociais e combater a disseminação de notícias falsas e discursos de ódio.
É preciso fortalecer os movimentos sociais e as organizações da sociedade civil, que são a principal força de resistência contra a extrema-direita. É preciso construir alianças amplas e plurais entre diferentes setores da sociedade, unindo forças em torno de um projeto comum de justiça social, democracia e soberania popular.
É preciso, como apontado por Pedro Regazzo, garantir a qualidade da educação e o acompanhamento dos alunos, para que programas como o Pronatec não sejam vistos como meramente "populistas", mas sim como ferramentas efetivas de transformação social.
O Futuro da América Latina em Jogo
O futuro da América Latina está em jogo. A persistência da extrema-direita representa uma ameaça à democracia, aos direitos humanos e à soberania dos povos latino-americanos. No entanto, a resistência popular e a construção de alternativas progressistas oferecem esperança para um futuro mais justo, igualitário e democrático. É preciso fortalecer a luta contra a extrema-direita, unindo forças em torno de um projeto comum de justiça social, democracia e soberania popular.
A América Latina tem um longo histórico de lutas e resistências contra o imperialismo e o autoritarismo. A história nos ensina que é possível derrotar a extrema-direita e construir um futuro melhor para todos. A chave para o sucesso é a união, a organização e a mobilização popular.


