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Conselho do Bilhão de Trump: a venda da paz mundial no balcão do imperialismo

Conselho do Bilhão de Trump: a venda da paz mundial no balcão do imperialismo

Proposta de cobrar US$ 1 bilhão por assento em 'Conselho de Paz' expõe a monetização do acesso político e a tentativa de privatizar a diplomacia global

247 – Em uma das mais audaciosas e transparentes demonstrações da lógica transacional que rege sua visão de mundo, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, propõe a criação de um “Conselho de Paz” no qual o acesso e a permanência seriam literalmente vendidos por US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,3 bilhões). A proposta, revelada em documentos aos quais a agência de notícias AFP teve acesso nesta segunda-feira (19), escancara a monetização do poder e do acesso político em sua forma mais explícita, transformando a diplomacia internacional em um clube exclusivo para os mais ricos. A iniciativa, que visa criar uma alternativa à Organização das Nações Unidas (ONU), já enviou convites a líderes como Vladimir Putin da Rússia, Viktor Orban da Hungria, e até mesmo a presidentes de nações do Sul Global, como Brasil e Argentina, colocando em xeque os próprios fundamentos da ordem multilateral baseada na soberania e igualdade entre as nações.

O Clube do Bilhão: A Privatização da Diplomacia

A estrutura do “Conselho de Paz” proposto por Trump não deixa margem para dúvidas sobre sua natureza excludente e antidemocrática. Segundo a carta fundacional do organismo, os países-membros que aportarem mais de US$ 1 bilhão em recursos financeiros durante o primeiro ano teriam sua filiação garantida, ao contrário dos demais, cujo mandato seria de apenas três anos e renovável a critério do presidente do conselho. E quem seria o presidente com poderes quase absolutistas? O próprio Donald Trump. Ele seria “o presidente inaugural do Conselho de Paz”, com autoridade para convidar nações discricionariamente, dar a palavra final em votações e até mesmo revogar a participação de um país.

O preâmbulo dos estatutos define a organização como uma entidade que “busca promover a estabilidade, restabelecer uma governança confiável e legítima, e garantir uma paz duradoura”. No entanto, a própria mecânica de funcionamento contradiz esses nobres objetivos. Ao condicionar a influência ao poderio financeiro, a proposta institucionaliza uma ordem mundial onde as decisões sobre guerra e paz não seriam guiadas pelo direito internacional ou pela busca de consenso, mas pelo capital. Trata-se da aplicação da lógica do lobby e do financiamento de campanha, onde grandes doadores compram acesso e influência, à escala da geopolítica global. A paz, nesse modelo, deixa de ser um direito universal para se tornar uma mercadoria de luxo, acessível apenas a quem pode pagar.

A composição inicial do conselho, com nomes como seu genro Jared Kushner, o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair (arquiteto da invasão do Iraque) e seu secretário de Estado, Marco Rubio, reforça o caráter de um projeto de poder pessoal e ideológico, e não de um fórum multilateral genuíno. É a formalização de um eixo de poder que despreza as instituições e opera com base em lealdades pessoais e transações financeiras, um modelo perigosamente alinhado a regimes autocráticos.

Um Ataque Frontal à Ordem Multilateral

A proposta de Trump é, em sua essência, um ataque direto à Organização das Nações Unidas e a todo o arcabouço multilateral construído no pós-Segunda Guerra Mundial. O texto fundacional do conselho critica abertamente as “muitas abordagens de paz” que “institucionalizam crises em vez de permitir que as pessoas prosperem”, uma clara alusão à ONU. A ideia, segundo o documento, é contar com “uma organização de paz internacional mais ágil e eficaz”, que tenha “a coragem de se distanciar de abordagens e instituições que fracassaram com muita frequência”.

A reação da comunidade internacional, especialmente de aliados tradicionais dos EUA, foi de imediata rejeição. A França, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, foi categórica. O ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, afirmou que a iniciativa é “incompatível com os compromissos internacionais da França e, em particular, com sua pertença às Nações Unidas, que obviamente não pode ser colocada em causa sob nenhuma circunstância”. Uma fonte do governo canadense também indicou que o país não pagaria por um assento. A própria ONU reagiu por meio da porta-voz do presidente da Assembleia Geral, La Neice Collins, que lembrou ao mundo que “existe uma única organização universal e multilateral para abordar as questões de paz e segurança, e é a ONU”.

Essa ofensiva de Trump contra o multilateralismo não é nova. Durante seu mandato, ele retirou os EUA de diversos acordos e organizações internacionais. A criação de um conselho pago é apenas o passo mais radical nessa direção, buscando substituir um sistema baseado em regras e na igualdade soberana dos Estados por um cartel de nações ricas e autocracias alinhadas, onde o poder de veto não vem do status histórico, mas da capacidade de assinar um cheque bilionário.

A Lógica 'Pay-to-Play' Elevada à Geopolítica

Para entender a proposta do “Conselho de Paz”, é fundamental analisá-la como a culminação da filosofia “pay-to-play” (pague para jogar) que domina a política norte-americana e que Trump personifica. Nos EUA, grandes corporações e bilionários financiam campanhas eleitorais em troca de acesso privilegiado a legisladores e formuladores de políticas, garantindo que seus interesses sejam atendidos. O que Trump faz com seu conselho é exportar esse modelo de corrupção legalizada para a arena das relações internacionais.

A ideia de que um país pode comprar um assento permanente em uma mesa de decisões globais destrói qualquer pretensão de legitimidade ou justiça. Questões críticas, como a reconstrução de Gaza – que foi o pretexto original para a criação do conselho –, seriam decididas não com base nas necessidades da população palestina ou nas resoluções da ONU, mas nos interesses dos países que pagaram para estar ali. A oposição de Israel à inclusão da Turquia e do Catar no conselho executivo para Gaza, por exemplo, já demonstra como o órgão seria palco para disputas de poder entre seus membros pagantes, em vez de um mediador neutro.

Essa monetização do acesso político representa uma grave ameaça à soberania das nações, especialmente as do Sul Global. Países como Brasil e Argentina, que foram convidados, se veem diante de um dilema: aceitar o convite e se submeter a uma ordem imperialista baseada no dinheiro, ou recusar e arriscar o isolamento de um novo centro de poder global. A proposta cria uma hierarquia explícita entre as nações, dividindo o mundo entre os que podem pagar para decidir e os que devem apenas acatar as decisões dos ricos. É a antítese da diplomacia e a consagração da lei do mais forte – ou, neste caso, do mais rico.